Os 9 detalhes escondidos – que teria sido melhor você descobrir por conta própria
Por Jorge Rocha
Sou um grande fã de filmes de terror e também de produções humorísticas e nonsense. Minha adolescência foi alimentada, em parte, por isso – a receita completa é um segredo ainda maior do que a fórmula de um certo refrigerante gaseificado cor de petróleo. A dieta continua na vida adulta e não tenho dúvidas que irá me seguir velhice adentro. Por isso, acompanhei com interesse o lançamento recente de mais um filme da franquia do assassino com cara de fantasma e também de sua paródia, aproveitando de forma descarada o timing. Gosto das duas franquias – me divirto com ambas.
Mas o que não me divertiu, de jeito algum, foi ver a profusão de vídeos no YouTube explicando os trailers de ambos os filmes, anunciando que mostravam “tudo aquilo que você perdeu”, “todos os easter eggs” ou “o que você ainda não sabe”. Fiquei “perplecto”, como dizia o sábio Gil Brother. Mandei mensagem para meu filho, que também gosta desses tipos de filmes, perguntando se ele andava vendo “essas desgraças de canais do YouTube que ‘falam tudo’ sobre trailers”.
Eu já sabia que ele passa longe disso. Ele não abre mão da percepção, da interpretação, da surpresa e tudo o que vem no balaio da experiência com uma produção cultural. Mas isso aliviou apenas um pouco meu assombro com isso, que estou considerando não apenas como a morte da experiência ao ter contato com um produto cultural, mas sim como um assassinato do exercício da interpretação, um genocídico de células cerebrais – com clickbait e merchan.
O horror, o horror!
Imagina isso sendo aplicado ao “mundo aqui fora”, aqui mesmo em Campos? Vai vendo.
>“Você não vai acreditar nos 11 easter eggs escondidos no Palácio da Cultura!”
>”Os 7 segredos do Museu de Campos que você perdeu enquanto tirava uma foto pro Instagram”
>”EXCLUSIVO – O que a Festa de Santo realmente quer te dizer e você não viu (Parte 1/3)”
>“Deciframos TODOS os segredos do sótão do Mosteiro de São Bento de Mussurepe nesse vídeo”
>“26 participações especiais na Cavalhada de Santo Amaro – que você nem percebeu porque estava offline”
>“Revelamos como se faz chuvisco – o ingrediente secreto que não querem que você descubra!”
>“VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR – 13 easter eggs do rio Paraíba do Sul que só quem conhece o Ururau da Lapa reparou!”
>“Lobisomens de Gargaú: 19 pistas disfarçadas nas manchetes do Descubra Campos. A última irá te surpreender!”
É uma piada, mas uma piada um tanto quanto perigosa. A rotina de transformar surpresa em roteiro desmontado corrói devagar a nossa capacidade de perceber por conta própria: os músculos da atenção atrofiando pela preguiça de procurar, a curiosidade sendo terceirizada para um apresentador que comercializa revelações, a criticidade virando backup pago num botão de “inscreva-se”. Quando a interpretação vira produto, a memória coletiva fica mais frágil, passando a depender de quem controla a narrativa em vez de se alicerçar nas vozes de realizadores culturais, nas histórias que realmente são contadas em suas obras e nas lembranças que são criadas com todo esse movimento.
Eu ouvi várias vezes que a revolução não seria televisionada. Mas parece que a extinção da experiência cultural caminha bem pelas plataformas de streaming.
Pode piorar? Sim! Espera aí que logo sai um vídeo explicando todas as referências de cultura pop desta coluna.