COLUNA | Corações Solitários & Amores Possíveis: a verdade
Por Jorge Rocha
Faltam poucos dias para encenar “Corações solitários & Amores possíveis” com a Mutável Saralho Band no Teatro de Bolso e hoje, justamente hoje, me pergunto o que é que estou fazendo. Escrever sobre amor é uma das tarefas mais masoquistas que eu conheço. E mesmo assim, sem ter o menor prazer em sentir qualquer dor, fui não só cutucar a ferida como também chamei os demais mutáveis para isso.
Temo ter começado algum fetiche coletivo.
Enquanto não descubro se foi isso mesmo que realmente aconteceu, faço uma revisão completa em tudo o que criamos para este espetáculo – e fico novamente com a impressão de que o título parece nome de tango. Fomos ali nos anos 80, pegar umas referências de amores ainda em broto e elementos de cultura pop que nasceram para ser parodiados somente para criar nosso próprio microcosmo desta década. Colocamos nosso louco amor na última astronave, digo, em uma emissora de rádio e transmitimos nossa versão radiofônica – porque o rádio já foi tão popular, assim como o amor – para falar sobre os nós nas tripas diante de descobertas de coisas do coração.
Sim, aqui ninguém tem uma camiseta escrito “eu te amo”.
Para mim, construir este espetáculo não foi uma tarefa fácil. Escrever sobre o que se entende sobre amor nunca é – para quem se recusa a rimar amor com flor. Elaborar um espetáculo multilinguagem sobre amores com mais três cabeças fortemente criativas talvez tenha sido uma das empreitadas mais dolorosas a que me submeti. Porque significa usar tantas outras forças criativas para encorpar, avolumar, agigantar e dar musculatura férrea ao que eu, timidamente, escrevi sobre amores, tentando remendar e juntar nacos de assombro em alguma espécie de – valha o termo – entendimento. É um assombro diante de um assombro. E colocar escrever sobre este espetáculo agora é uma forma de tentar entender justamente isso.
Durante os ensaios, não foram poucas as vezes em que eu percebi tudo ao redor mudando e isso me deixava meio assustado. Mas eu fingia que não havia acontecido nada e seguia. Tenho essa crença de que não será difícil para o público saber que momentos são esses.
Da minha parte, antecipo que, quando pisarmos no palco pela primeira vez com este espetáculo, ficará rodando em loop a frase “It’s alive!”.
