COLUNA | Em busca de uma conversa com Adriano Moura
“Precisamos marcar uma cerveja para conversar porque temos, pelo menos, uns 20 anos de papo para colocar em dia”. Com essa frase, me despedi do escritor e professor Adriano Moura, após uma breve conversa durante a Festa Literária da Santa Paciência (FLISP), em 2024. Falamos sobre “A Inocência dos Mortos”, seu romance que eu ainda não havia lido, mas dele já sabia um bocado. E como foi bom ter essa pequena conversa com Adriano. Tenho uma espécie de dívida com autores campistas, especialmente com ele.
Eu o via esporadicamente vez ou outra, quando vinha para Campos, de passagem; mas em todo esse tempo, nunca havia feito um convite para uns dois dedos de prosa. Um pressuposto básico de todo jornalista da área cultural – oi, sou eu aqui, ó! – em relação a quem produz cultura que eu simplesmente desconsiderei por anos a fio. Foram outros tempos. Mas o convite, ecoando aquela mania carioca de “vamos marcar…”, nunca se concretizou.
Corta para o terceiro dia do Festival Doces Palavras (FDP!), no Palácio da Cultura, bem recente, ali na esquina do tempo. Encontro Adriano Moura tomando uma cerveja no espaço destinado à “literatura boêmia” – que desgraça de termo… – no evento. Puxo um copo e uma conversa sobre os caminhos que a produção literária em Campos tomou do começo dos anos 2000 para cá, emendando em trocas de impressões sobre o mercado para a literatura nacional, mídia desinteressada em ir além do mainstream, busca por horizontes além dos limites do município, editais e multinguagens artísticas, além de gostos em comum de autores e autoras.
A conversa acabou chegando em casos que acontecem em Campos, em lugares que frequentávamos, e que são mais estranhos do que qualquer ficção. Boa parte acontece ou começou em bares e todos eles rendem livros – que ninguém nunca irá assumir a missão suicida de escrever, nem sob pseudônimo. Ainda no tópico “bar & literatura”, Adriano me disse que Afrânio – sim, ele próprio, do Bar do Afrânio – era plenamente versado em Machado de Assis. Fiquei com umas duas ideias para contos com essa informação.
Na hora de seguirmos nossos rumos, Adriano chamou a atenção para um detalhe: sem combinar nada, finalmente havíamos conseguido tomar uma cerveja para conversar. Eu não havia me dado conta disso. E nem do quanto me fazia falta uma conversa com este escritor, meu amigo, que é, ao mesmo tempo, uma criatura leve e também capaz de, ferinamente, produzir um romance que mistura gêneros, estica tensão e suspense até o ponto exato, tratando de intolerância e lgbtfobia em um panorama sociopolítico cru e doloroso. E como se não bastasse, ainda adapta a narrativa para um monólogo teatral – que, falha minha, ainda não assisti.
Assumimos o compromisso – que agora eu torno público – de mantermos esse tipo de conversa assiduamente. Sexta agora temos mais uma marcada. Segue valendo, desde que não vire podcast.
