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COLUNA | O que queremos fazer com o patrimônio que recebemos?

Jornada do Patrimônio Fluminense está com inscrições abertas e propõe discutir como transformar preservação em oportunidade de desenvolvimento para Campos e outras cidades do estado

Por Rafa Machado

Na minha última coluna, escrevi sobre o centro de Campos e sobre como o patrimônio histórico pode deixar de ser visto como um problema e passar a fazer parte da solução. Defendi que restaurar prédios antigos é importante, mas não basta. É preciso devolver função a esses espaços, criar condições para que sejam ocupados, atrair pessoas, estimular negócios e fazer com que a história volte a participar da vida cotidiana da cidade.

Essa discussão não se encerra nas fachadas do centro. Ela se estende aos nossos casarões, igrejas, fazendas, paisagens naturais, manifestações culturais, saberes e tradições. E envolve uma pergunta que considero fundamental: o que estamos fazendo com o patrimônio que recebemos do passado e o que podemos construir a partir dele?

É a partir dessa inquietação que estamos organizando a Jornada do Patrimônio Fluminense — Experiências, negócios, preservação e novas formas de ativar o patrimônio histórico, que acontece no dia 5 de novembro, na Associação Comercial e Industrial de Campos dos Goytacazes. As inscrições estão abertas, e a proposta é reunir pessoas que trabalham com patrimônio, cultura, turismo, gestão pública, pesquisa e empreendedorismo para discutir caminhos possíveis para a preservação e a ativação dos nossos bens históricos e culturais.

Acredito que precisamos ampliar a maneira como tratamos esse assunto. Preservar é uma obrigação com a nossa história, mas também pode ser uma oportunidade de desenvolvimento. Um imóvel restaurado pode voltar a receber visitantes, abrigar atividades culturais, gerar trabalho e renda. Uma tradição pode se transformar em experiência turística sem perder sua identidade. Uma paisagem natural pode ser reconhecida como patrimônio e, a partir disso, ganhar novas estratégias de proteção e valorização.

Nada disso acontece automaticamente. É preciso planejamento, conhecimento técnico, capacidade de gestão, financiamento e, principalmente, disposição para encontrar novos caminhos.

Por isso, a Jornada vai abordar questões que considero decisivas para o futuro do patrimônio. Uma delas é o financiamento: quem paga a conta da preservação? Como viabilizar restaurações, captar recursos e construir modelos de gestão que permitam a continuidade do trabalho depois que as obras terminam? Afinal, não faz sentido recuperar um edifício histórico sem pensar no que acontecerá com ele nos anos seguintes.

Outro tema importante é o combate ao comércio ilegal de bens patrimoniais, uma ameaça que exige articulação entre instituições de preservação, órgãos de fiscalização e Justiça. Também vamos discutir o papel dos órgãos de proteção, os projetos de restauração realizados em Campos e as possibilidades de aproximar o patrimônio das pessoas por meio de novos usos, experiências e atividades econômicas.

A programação terá ainda espaço para experiências que mostram como o patrimônio pode movimentar territórios de diferentes maneiras. Vamos falar sobre a farinha de São Francisco, a cultura popular de Quissamã e o chuvisco, doce tão ligado à memória e à tradição campista. São exemplos de como os bens culturais não estão apenas nos edifícios, mas também nos conhecimentos, nos hábitos e nas práticas que atravessam gerações.

Outras experiências vão nos levar a Paraty, Maricá e Engenheiro Paulo de Frontin, com iniciativas que aproximam cultura, natureza, participação social e turismo. Também discutiremos o patrimônio ambiental e as possibilidades de reconhecer e cuidar da paisagem natural como um bem patrimonial.

São perspectivas diferentes, mas que partem de uma mesma ideia: cada território tem características próprias e precisa encontrar formas de valorizar aquilo que o torna singular. Não se trata de copiar modelos, mas de conhecer experiências, entender o que funcionou e avaliar o que pode fazer sentido para a nossa realidade.

E é justamente por isso que considero importante realizar essa discussão em Campos. Temos um patrimônio expressivo, uma história que se manifesta na arquitetura, na paisagem, na cultura e na memória da população. Temos também desafios concretos para conservar esse legado e encontrar formas de mantê-lo vivo.

Acredito que o patrimônio pode participar de uma agenda de desenvolvimento muito mais ampla. Pode fortalecer o turismo, estimular a economia criativa, gerar oportunidades para empreendedores, contribuir para a educação e a pesquisa e ajudar a recuperar espaços urbanos que perderam parte de sua vitalidade. Mas, para isso, precisamos superar a ideia de que preservar significa apenas impedir que algo desapareça. Preservar também é encontrar maneiras responsáveis de fazer com que esse patrimônio continue tendo sentido no presente.

A Jornada do Patrimônio Fluminense é uma tentativa de reunir pessoas, experiências e conhecimentos em torno dessas questões. A iniciativa é realizada pela Script Consultoria Histórica e Projetos Culturais, com apoio da FAPERJ, por meio do Edital nº 26/2025, e da Associação Comercial e Industrial de Campos.

Mais do que apresentar projetos bem-sucedidos, queremos abrir espaço para perguntas, trocar experiências e discutir possibilidades. Como transformar um bem restaurado em um lugar vivo? Como conciliar preservação e atividade econômica? Como financiar projetos? Como fazer com que as comunidades reconheçam o patrimônio como parte de sua própria história e também como um recurso para o futuro?

Não tenho a pretensão de acreditar que um evento seja capaz de responder a tudo isso. Mas acredito que reunir pessoas dispostas a pensar, compartilhar experiências e construir soluções é um passo importante.

As inscrições estão abertas, e o convite é para que profissionais, estudantes, gestores, empreendedores, pesquisadores e todos aqueles que se interessam pela história e pelo futuro das nossas cidades participem dessa conversa.

Afinal, o patrimônio não é apenas aquilo que herdamos. É também aquilo que escolhemos preservar, os usos que somos capazes de imaginar e o legado que queremos deixar para as próximas gerações. E talvez seja esse o ponto de partida: parar de olhar para o patrimônio apenas como algo que precisamos salvar e começar a enxergá-lo, também, como uma possibilidade de construir o futuro.

Jornada do Patrimônio Fluminense — Experiências, negócios, preservação e novas formas de ativar o patrimônio histórico

Data: 5 de novembro de 2026

Local: Associação Comercial e Industrial de Campos (ACIC)

Inscrições abertas: https://scriptprojetosculturais.com/jornada.html