NOTÍCIAS

COLUNA | Duas ou três notas (dissonantes) sobre um espetáculo de amores brutos

Há quem chame de cinema ao vivo. Eu gosto desta especificação, mas prefiro qualificar “Corações solitários & amores possíveis”, espetáculo da Mutável Saralho Band recém-encenado no Teatro de Bolso, como uma fusão entre fusões. Acredito que o maior ganho e a melhor forma de não deixar escapar nenhum elétron-volt da energia criativa empregada na criação deste apresentação multilinguagem é justamente não dissociar as partes envolvidas. Isolar e afastar, por qualquer motivo, é reducionismo.

A força motriz da Mutável Saralho Band sempre foi costura de referências. E nestes dois últimos espetáculos, isso teve mais vigor. Ano passado, entramos de cabeça na multilinguagem, incorporando projeções de vídeos às leituras musicadas de meus contos e de Marcelle Louback, no espetáculo “Minhas memórias foram demolidas”, que apresentamos no Teatro Sesi Firjan. Para este agora, fomos ainda mais meticulosos, cuidando milimetricamente de cada passo dado, desde a escrita e escolha dos contos até à cenografia. Até a postura estanque e em guarda de um e a teatralidade de gestos largos da outra são partes desta composição.

Tudo isso para que pudéssemos estabelecer um microcosmo fantástico, um safe space simbólico onde fosse possível estarmos à vontade para contar/musicar/mostrar histórias terríveis de amores nada idílicos. E disfarçar toda essa carga, encenando uma improvável emissora de rádio dos anos 80 em um universo paralelo, um simulacro de docilidades e frivolidades, uma camada açucarada por cima das toneladas de referências que costuramos em um coraçãozinho frankenstein.

E funcionou tão bem.

Eu conseguia perceber Bill Murray sussurrando no ouvido de Scarlett Johansson no momento em que a imagem era exibida às minhas costas, o enunciado chegando até a mim de mãos dadas com a trilha sonora. Nenhuma palavra nessa hora, além das minhas. E o que eu lia estava encharcado das mesmas sensações que tive quando vi essa cena de Lost in Translation pela primeira vez. Eu não conseguiria nunca ler em voz alta o que escrevi, se não fosse desse modo, se não tivéssemos criado essa poderosa câmara de eco. Clic.

Foi essa mesma combinação que me permitiu encarnar Zack, personagem de Tom Waits em Down by Law, enquanto canta a frase “it´s a sad and beautiful world”, antes e depois de ler um dos meus poucos contos que concorda com a ideia de que há esperança no amor. Eu mesmo só fui entender que o narrador era este personagem depois que definimos a trilha para esse conto.

No palco, lançamos pistas em todo o conjunto exposto. Vez ou outra, fora dele, indicamos algumas chaves.

Tem mais. Eu conto no próximo espetáculo.