COLUNA | Ainda há tempo para o carnaval de Campos?
Por Rafaela Machado
Se perguntarmos a um campista mais jovem, alguém da geração Z ou A, por exemplo, se Campos tem tradição no carnaval, a resposta provável seria “não”, ou, no máximo, alguma referência ao carnaval que os campistas aproveitam nas praias da região. O que talvez muitos nem imaginam é que Campos chegou a ter um dos mais badalados e frequentados carnavais de rua do Rio de Janeiro, atraindo não só campistas, como também visitantes que vinham de outras cidades – e até de outros estados – em busca da folia goitacá.
Pense no seguinte cenário: uma embarcação com partida de São Fidélis, em direção a Campos, reunindo a bordo tradicionais bandas de música da cidade, e que tinha como fim trazer visitantes para o carnaval campista. Achou pouco? Imagine ainda um trem cortando toda a região sul do Espírito Santo, cuja viagem tinha como propósito justamente trazer pessoas interessadas em passar o carnaval em Campos. Observem vocês que eu não mencionei São João da Barra, Atafona, também muito tradicionais, ou a praia do Farol de São Tomé. Aqui me refiro ao carnaval que tomava as ruas e avenidas de Campos, que acontecia nos clubes e residências e que nos fez ser conhecidos no Brasil como “Campos, a terra do chuvisco, da goiabada e do bom carnaval”.
A folia aqui era tão grandiosa que – para a surpresa de alguns – o carnaval de Campos chegou a ser considerado o segundo maior carnaval de rua do país, atrás apenas da cidade do Rio de Janeiro. Obviamente, esse é mais um daqueles títulos que Campos possui sem muito lastro ou referência. No entanto, é fato que o carnaval de rua da cidade já foi sim um dos mais concorridos do estado e que ainda hoje luta para manter a tradição que se perpetua em diferentes blocos e agremiações.
Assim como em outros locais, a história do carnaval local remonta ao século XIX e tem origem com o chamado Entrudo, prática de origem portuguesa, marcada pela guerra de limões de cheiro, mas também água e farinha de trigo e até baldes de urina. Com o tempo, a prática evoluiu para as famosas batalhas de confete e serpentina nos clubes, salões, residências e ruas da cidade. Hervé Salgado Rodrigues, na obra “Na Taba dos Goytacazes”, destaca que já no ano de 1834, famílias abastadas da cidade reuniam em suas casas a elite local para festejos carnavalescos regados a polcas, maxixes e marchinhas.
Mas quando o carnaval ganhou as ruas de Campos? Segundo Horácio Souza, na obra Cyclo Áureo (aliás, excelente recomendação que está disponível on-line, gratuitamente, no site da Editora Essentia), os desfiles das primeiras sociedades carnavalescas em Campos tiveram início em 1857, quando surgiu a Sociedade Congresso Carnavalesco, seguida pelo Clube Zenith Carnavalesco (1869), e pela Sociedade Az de Copas (1870) – que provocou escândalo quando homens saíram fantasiados de mulher. Os desfiles carnavalescos tomavam as ruas de Campos, e era possível desfilar a pé, a cavalo, ou ainda em carros puxados por bois ou carruagens.
O ano de 1870 marca, aliás, um momento singular do carnaval campista com o surgimento do Clube Macarroni, um dos mais famosos e que mais longa vida alcançou, e assim chamado em referência à vasta colônia de italianos local (tema, aliás, para mais um artigo aqui no Descubra). Pouco depois, em 1876, foi criado ainda o Clube Indiano Goytaca, com forte referencial abolicionista, um ano depois o Club Neptuno, formado por trabalhadores do comércio e, finalmente, em 1884 surgia o Clube Tenentes de Plutão, um dos maiores responsáveis pelo grande salto na estética do carnaval campista ao se utilizar de carros alegóricos. A cena carnavalesca em Campos ficaria marcada, dessa forma, pela rivalidade entre o Clube Macarroni e o Tenentes de Plutão, mediada pelo Indiano Goytaca.
Quem vê o carnaval de Campos lutando para se manter, com desfiles adiados, falta de recursos e investimentos, não imagina também o luxo com que a festa acontecia pelas ruas da cidade. Sem subsídios públicos, indo para as ruas com arrecadações próprias, o carnaval de Campos atraía pessoas de diferentes cidades vizinhas, como São Fidélis e Cachoeiro de Itapemirim, que aqui chegavam em embarcações chamadas de paquetes – quase que um cruzeiro do século XIX, já que essas embarcações movidas a vapor eram mais luxuosas e, normalmente, já reuniam a bordo uma série de apresentações com tradicionais bandas de música.
A partir de finais do século XIX, as embarcações foram dando lugar às viagens de trem, mais rápidas e modernas, mas que aconteciam igualmente organizadas para trazer visitantes ao famoso carnaval de Campos. Nesse ponto da leitura permitam-se uma observação muito pessoal: podemos ter saudade do que nem sequer vivemos? Esse cenário parece hoje tão distante… Pessoas viajando por toda a região em embarcações e trens e acessando uma cidade repleta de teatros, clubes, jornais e rádios e na qual o carnaval era um dos melhores do país. Parece tão distante, né?
O século XX viu ainda a ascensão de cordões, ranchos e blocos de carnaval, cujo mais famoso era o “Pega Veado”. Além disso, os bailes em grandes clubes, como o Automóvel Clube Fluminense e o Saldanha da Gama ganhavam cada vez mais destaque. De tão grandiosas, as festas, concursos e desfiles eram transmitidos ao vivo pelas tradicionais rádios locais e os teatros tinham suas lotações esgotadas com apresentações e concursos carnavalescos. E se nas ruas as festas eram para todos, nos clubes para alguns, nas residências os bailes eram privativos e, a depender dos organizadores, essas festas podiam ser muitíssimo concorridas, com direito a bailes embalados por liras e músicas de variados estilos.
Entre os anos 20 e 40, os grandes clubes já davam sinal de cansaço, e em 1946 aconteceu o último desfile das sociedades carnavalescas – que deram lugar às escolas de samba. Inicialmente, essas escolas começaram a se organizar com nomes de escolas do Rio, assumindo, posteriormente, identidade própria. Surgiram assim as escolas que até hoje mantêm viva a tradição do carnaval campista, como Madureira do Turf, Mocidade Louca e Ururau da Lapa. Capitaneados por nomes como Jorge da Paz, essas escolas levavam a população campista às ruas para cantar a sua própria visão de mundo.
É importante que se diga que além das escolas de samba, os blocos tradicionais também desempenharam um papel fundamental no carnaval da cidade. Blocos como “Os Brotos” e “As Piranhas” se tornaram parte essencial da tradição carnavalesca local. Além disso, os chamados bois pintadinhos representam também uma valiosa manifestação cultural do carnaval campista, especialmente nas áreas rurais da cidade.
De lá pra cá muita coisa mudou. O carnaval campista perdeu protagonismo, passou por diferentes momentos. Os desfiles saíram das ruas para ganhar o Centro de Cultura Popular Osório Peixoto, perderam a primazia de acontecer no próprio carnaval ao receber um calendário alternativo – o Campos Folia – nem sempre respeitado. A falta de investimentos consistentes, como no Rio de Janeiro, parece contribuir para o seu enfraquecimento.
Mas há aqui um destaque importante: o carnaval em Campos, assim como em outros lugares, é ato de resistência e enquanto resistência, vai sobreviver. A verdade é que assim como no início da sua própria história, é o amor do campista pelo carnaval que o mantém aceso até os dias de hoje, através dos blocos e bois pintadinhos, além das tradicionais escolas, é claro. E se você, campista ou não, ama carnaval, pode se animar: em Campos a tradição carnavalesca é antiga e segue resistindo pelas ruas da cidade.





