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Aqui as próprias mulheres lutam pelo direito. Mas até quando?

Especial Dia Internacional da Mulher

Por Rafaela Machado

Haverá um dia da mulher em que não receberemos um “parabéns, guerreira”? Será que a sociedade entende que ser guerreira pressupõe viver em batalhas constantes? Eis aí algo que nós mulheres não aguentamos mais: lutar todos os dias! A história por trás do dia da mulher por si só já demonstra a tônica social de ontem e de hoje, já que ele existe para simbolizar a luta por igualdade de direitos. A data escolhida recupera a participação de mulheres no movimento operário e em greves no início do século XX, guardando íntima relação com os protestos por melhores condições de trabalho e salários, além do direito ao voto.

E seja dita a verdade: ontem e hoje cá estamos nós, mulheres, ainda lutando por essa tal igualdade. Em Campos não há diferença, pelo contrário. O último Censo Demográfico de 2022 demonstrou que Campos segue a tendência brasileira naquilo que se refere à proporção entre homens e mulheres na sociedade, já que no município somos 253.084 mulheres – 52% da população, enquanto as mulheres representam 51,5% da população brasileira. Apesar disso, são ainda poucas as mulheres a ocuparem espaços de poder na cidade, especialmente nas áreas públicas de atuação.

É curioso que isso ainda aconteça justamente na terra de Benta Pereira, aquela que é conhecida como “heroína dos campistas” e que está presente, inclusive, no célebre brasão da cidade que diz “aqui até as mulheres lutam”. E, afinal, o que Benta Pereira fez de tão importante para ter inspirado a cidade a adotar a sua própria luta, a luta do seu tempo, como símbolo que nos acompanha até os dias de hoje?

Benta Pereira é uma das figuras mais célebres da história de Campos dos Goytacazes. Seu nome está diretamente associado ao levante de 1748, ocorrido na então Vila de São Salvador da Paraíba do Sul, quando moradores da capitania se insurgiram contra os desmandos do 4º Visconde de Asseca, donatário da região. Ao longo do tempo, sua imagem foi sendo construída como a “heroína dos campistas”, símbolo da resistência local.

Mas a história, quando vista de perto, revela nuances muito mais interessantes do que a simples narrativa épica da mulher que teria liderado homens armados pelas ruas da vila. A redescoberta em 2015 de documentos pertencentes a Benta Pereira permitiu compreender suas escolhas, seus afetos, suas preocupações espirituais, seus bens e suas relações. Foi a partir dessas fontes que nasceu o livro Benta Pereira em documentos, permitindo reconstruir sua trajetória para além do mito.

Benta Pereira de Souza nasceu em 1675, na freguesia de São Salvador dos Campos dos Goytacazes. Era filha legítima de Domingos Pereira da Cerveira e Isabel de Souza. Importa esclarecer um equívoco frequentemente repetido: seu pai não era padre quando ela nasceu. Domingos foi camarista e tenente, casou-se duas vezes e apenas após enviuvar pela segunda vez ordenou-se sacerdote.

Entre 1695 e 1700, Benta casou-se com Pedro Manhães Barreto, na Igreja de São Salvador. Em 1713, ficou viúva aos 38 anos, com seis filhos. A partir daí, assumiu a administração dos bens da família. Fruto de seu tempo, era proprietária de terras, gado vacum e cavalar, possuía pessoas escravizadas, uma engenhoca no sertão do Itaoca, propriedades em São Gonçalo — atual Goitacazes — e casas no centro da vila. Para os padrões da época, tratava-se de uma mulher de expressiva posição econômica.

Benta faleceu em 1760, aos 85 anos, em sua fazenda de Campo Limpo, situada em São Gonçalo. Foi sepultada na capela da fazenda de Nossa Senhora da Conceição e Santo Inácio, conhecida como Solar do Colégio, aos pés do altar do Divino Espírito Santo. Ali permanecem seus restos mortais até hoje — e não deixa de ser simbólico que, séculos depois, eu tenha ido trabalhar justamente naquele mesmo espaço.

Mas qual foi, afinal, sua participação no levante de 1748?

A resposta exige cautela. Ao longo do tempo, versões mais romantizadas a colocaram como líder armada, conduzindo homens à revolta. Outras interpretações minimizaram seu papel. A documentação permite um caminho mais sólido.

Os conflitos de Benta Pereira e dos seus filhos, chamados de “Manhães Barreto”, contra os sucessivos viscondes de Asseca, envolviam cobranças consideradas abusivas, disputas por contratos — como o do chamado “gado do vento” — e perseguições políticas. Durante anos, a resistência se deu pelas vias legais. Houve articulação política, construção de alianças e reuniões organizadas na própria residência de Benta.

Quando as negociações se tornaram insustentáveis, o conflito ganhou outra dimensão: o famoso Levante de 1748. Com quase 80 anos, Benta atuou no socorro aos feridos, enquanto os seus filhos lutaram na linha de frente, incluindo Mariana Barreto. Se olharmos apenas para aquele ano, a participação de Benta pode parecer até tímida. No entanto, o levante de 1748 foi resultado de um longo processo de tensões acumuladas e que só pode ser analisado à luz do protagonismo e do pioneirismo de Benta na organização do movimento de resistência.

Se Benta empunhou armas pessoalmente, não temos prova documental conclusiva. Mas sabemos, com base nas fontes, que ela foi articuladora central de uma rede familiar e política ampla. Viúva, proprietária, chefe de uma extensa parentela formada por filhos, genros, noras, netos, afilhados e agregados, Benta exerceu liderança real em seu tempo. Embora tenha sido inicialmente reprimido, com perseguições e humilhações, o movimento saiu vitorioso quando, em 1754, resultou na anexação da Capitania da Paraíba do Sul aos domínios da Coroa.

E é curioso pensar que vivemos na cidade cujo brasão eternizou a frase “aqui até as mulheres lutam pelo direito”. A pergunta que permanece é: até quando precisaremos lutar apenas para ocupar os espaços que deveriam ser nossos por direito?

Ao recontar a trajetória de Benta Pereira celebramos o que há dela em nós, mulheres campistas — de nascimento ou de escolha. Mas há ainda outras que devem viver em nós: as invisibilizadas, as esquecidas pela história. As muitas Marias, Joanas, Roses, Anas e tantas outras que não tiveram os seus nomes registrados, mas que contribuíram indelevelmente para o que – e para quem – somos hoje.

Que o nosso “parabéns” não seja pela exaustão das batalhas diárias, mas pela legitimidade da presença. E que possamos, um dia, viver em uma sociedade na qual as mulheres não precisem ser chamadas de guerreiras — porque não estarão mais em guerra para existir, mas plenamente reconhecidas em seus direitos e em sua voz.

E, quem sabe, um dia possamos dizer: aqui, as mulheres não precisam mais lutar para existir. Elas apenas existem – e ocupam.