Afinal, o que Campos comemora no 28 de março?
O dia 28 de março é uma das datas mais celebradas em Campos, sendo reconhecido como o aniversário da cidade. Mas, afinal, o que exatamente comemoramos nesse dia?
A data remete a 28 de março de 1835, quando a então vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes foi elevada à categoria de cidade. Diante disso, é natural que surja a pergunta: estaria Campos completando apenas 191 anos? A resposta exige compreender não apenas o significado histórico dessa data, mas também de outros marcos fundamentais para entendermos o processo de construção da municipalidade.
Para isso, é preciso recuar no tempo e conhecer a história da capitania. A região que hoje chamamos de Campos dos Goytacazes integrava a então capitania de São Tomé, posteriormente rebatizada de Paraíba do Sul, doada pelo rei de Portugal, dom João III, ao fidalgo Pero de Góis, em 1534. Apesar de ter criado um núcleo colonial chamado Vila da Rainha e ter conseguido se estabelecer com engenhos e plantações, Pero de Góis acabou expulso do território pelos legítimos ocupantes daquelas terras, os Goitacás.
Longe de reproduzir falácias históricas que classificam os Goitacás como “comedores de gente”, é importante destacar que aquele território já era ocupado há pelo menos dois milênios antes da era cristã. Inicialmente, Pero de Góis conseguiu se estabelecer em meio ao domínio indígena, mas, após cerca de cinco anos, foi expulso. Abandonada, a capitania foi devolvida à Coroa em 1619. Poucos anos depois, em 1627, as terras foram requeridas como sesmarias por sete senhores de engenho e criadores de gado residentes no Recôncavo da Guanabara e na região de Cabo Frio, conhecidos como “Sete Capitães”.
Em viagens de reconhecimento, esses colonizadores fundaram alguns currais de gado, sendo o primeiro deles erguido em 1633, na região de Campo Limpo. Ainda que não efetivamente colonizadas, aquelas terras despertaram o interesse do então governador do Rio de Janeiro, o general Salvador Correia de Sá e Benevides, responsável por firmar a chamada escritura de composição e por fundar, em 1650, o engenho São Salvador.
Em 1652, os moradores reunidos na região decidiram fundar, por iniciativa própria, uma vila: a vila de São Salvador. Para isso, realizaram, ao final daquele ano, a eleição dos oficiais que comporiam a Câmara Municipal — ato formal que, na América Portuguesa, marcava a criação de uma vila e era acompanhado da instalação de uma igreja e pelourinho. Eleitos no fim de 1652, esses oficiais foram empossados em 1º de janeiro de 1653, na primeira experiência de organização institucional da então nascente vila. No entanto, pouco depois de seu funcionamento, e atendendo a interesses de criadores de gado do Rio de Janeiro, a Câmara foi declarada ilegal pelo Conselho Ultramarino.
Outras tentativas de criação da vila e de instalação de uma Câmara ocorreram, mas foram igualmente impedidas pelos interesses dos criadores de gado, especialmente os ligados a Salvador Correia de Sá. Assim, após a doação da capitania da Paraíba do Sul a dois de seus filhos, foram oficialmente fundadas a vila de São Salvador, em 29 de maio de 1677, e a vila de São João da Praia, em 18 de junho do mesmo ano.

Com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, e, posteriormente, com a independência, em 1822, Campos passou a se destacar como centro político e econômico do Norte Fluminense. Nesse contexto, a construção de uma cidade com ares de modernidade tornava-se fundamental para garantir participação ativa nas decisões políticas e econômicas da província, inclusive com pretensões de sediar a capital fluminense. Foi nesse cenário que, por meio da Lei Provincial de 28 de março de 1835, a então vila foi elevada à categoria de cidade, passando a se chamar cidade de Campos dos Goitacazes — grafada, à época, com “i”.
Cabe lembrar que, antes da Independência, eram consideradas cidades os núcleos elevados a essa condição pelo rei. Após 1824, passaram a ser reconhecidas como cidades, por decreto, as vilas que eram capitais de província. A elevação à condição de cidade implicava, sobretudo, aumento de status político e social, além de alterações na composição da Câmara Municipal.
Em síntese, são várias as datas que ajudam a compreender a formação da cidade enquanto corpo político e administrativo. Se considerarmos a ocupação indígena, é preciso recuar a mais de quatro mil anos de presença Goitacá. Se pensarmos na experiência colonial, destacam-se a atuação de Pero de Góis, os currais dos Sete Capitães e a escritura de composição. No entanto, para a compreensão da estrutura administrativa local, três datas se sobressaem: 1º de janeiro de 1653, 29 de maio de 1677 e 28 de março de 1835.
Se fôssemos fazer justiça aos primeiros moradores daquele povoado nascente — homens e mulheres que fundaram uma das raras experiências de Câmara popular no Brasil Colônia —, deveríamos celebrar o 1º de janeiro de 1653. Se considerarmos a consolidação da empresa colonial, a data de 29 de maio de 1677 também se impõe como fundamental. Já o 28 de março de 1835, embora represente uma mudança de status mais simbólica do que administrativa, marca um momento singular na trajetória local.
Mais do que rememorar datas, refletir sobre esses marcos é reconhecer o processo de construção de Campos enquanto comunidade, enquanto municipalidade. Não se tratam de fatos isolados, mas de permanências históricas que ainda ecoam na sociedade que somos. Em perspectiva, o 28 de março de 1835 revela o momento em que Campos passa a ocupar posição de destaque no cenário político do Rio de Janeiro e do Brasil. Desta terra saíram nomes como Francisco Portella — que, embora não tenha nascido em Campos, aqui construiu sua trajetória política —, além de José do Patrocínio e Nilo Peçanha.
De lá para cá, muita coisa mudou: a paisagem, a sociedade, a economia e a política. Ainda assim, a cidade de Campos dos Goytacazes — hoje grafada com “y” — não pode deixar de refletir sobre si mesma. Podem me chamar de bairrista, até de provinciana, mas contar a história do 1º de janeiro, do 29 de maio e do 28 de março é, também, a minha forma de contribuir com a cidade que desejo (re)construir, viver e deixar.

