Campos foi a última cidade do Brasil a abolir a escravidão?
Das muitas distorções históricas que ainda circulam sobre a história de Campos dos Goytacazes, há uma que me causa especial incômodo: a ideia de que o município teria sido o último do Brasil a abolir a escravidão. Mais do que um erro factual, essa afirmação contribui para um longo processo de silenciamento — aquele que apaga a luta, a organização e o protagonismo dos próprios escravizados na conquista de sua liberdade.
Mas é preciso começar de outro ponto.
Campos foi uma das regiões com maior concentração de pessoas escravizadas do país. Vindos de diferentes partes da África e também de outras regiões do Brasil, esses homens e mulheres foram incorporados a uma estrutura econômica profundamente dependente do trabalho cativo. Às grandes propriedades açucareiras somavam-se inúmeras pequenas unidades produtivas, que recorriam à mão de obra escravizada sempre que possível.
Essa realidade moldou uma sociedade profundamente desigual, marcada por hierarquias rígidas, mas também por tensões constantes, de onde emergiram as lutas pela liberdade. Assim como no Brasil, o movimento abolicionista em Campos assumiu características bastante complexas. Longe de ser homogêneo, foi formado por diferentes atores, estratégias e interesses, em um cenário de conflitos e alianças.
A partir de 1884, esse movimento ganhou força com a fundação do jornal Vinte e Cinco de Março, idealizado por Luiz Carlos de Lacerda, uma das principais lideranças abolicionistas locais. O periódico tinha como objetivo difundir a causa e mobilizar a opinião pública. Ao seu redor, organizou-se o chamado Clube Abolicionista, que reunia figuras de destaque político e social, como Francisco Portella. No entanto — e isso é fundamental — o movimento não se limitava às elites letradas. Ele contava, cada vez mais e de forma cada vez mais decisiva, com a atuação direta dos próprios escravizados.
Nesse período, estratégias mais incisivas passaram a ser adotadas. Abolicionistas incentivavam fugas e organizavam o envio de escravizados para outras províncias, como o Ceará, onde a escravidão já havia sido abolida. Conferências públicas, encenações e exposições buscavam sensibilizar a população ao evidenciar a violência do sistema escravista.
Entre 1886 e 1887, os conflitos se intensificaram e o enfrentamento entre abolicionistas e escravistas assumiu contornos cada vez mais violentos, com participação ativa da polícia e crescente mobilização dos escravizados. A destruição da tipografia do Vinte e Cinco de Março, em 1887, marca esse momento de escalada. Paralelamente, multiplicam-se os incêndios em canaviais — ações que atingiram diretamente o coração da economia açucareira local.
Esses episódios não podem ser compreendidos como atos isolados. Eles fazem parte de um movimento mais amplo de resistência e pressão que culminaram de forma decisiva no ano de 1888. A partir de março daquele ano, teve início uma onda de fugas em massa — um verdadeiro êxodo de homens e mulheres que deixaram as fazendas, especialmente nas freguesias rurais, e seguiram em direção ao centro da cidade. Nos jornais da época, eram chamados de “retirantes”.
Diante do colapso iminente da produção e temendo prejuízos irreversíveis, os fazendeiros se viram pressionados. Foi nesse contexto que em 18 de março de 1888 ocorreu o chamado Congresso Agrícola. Reunidos na Câmara Municipal, representantes das elites locais — incluindo figuras do próprio movimento abolicionista — formalizam uma decisão histórica: conceder liberdade imediata aos escravizados, sem indenização.
À primeira vista, o episódio pode parecer uma concessão das elites. Mas essa leitura é insuficiente. A abolição em Campos não foi um gesto espontâneo dos senhores, nem apenas resultado da ação de intelectuais ou políticos. Ela foi, sobretudo, fruto da ação direta dos escravizados — que fugiram, resistiram, incendiaram, pressionaram. Foram eles que tornaram a escravidão insustentável e seu fim inegociável.
Ignorar esse protagonismo e atribuir o processo exclusivamente a figuras como Luiz Carlos de Lacerda é perpetuar uma narrativa incompleta. O movimento abolicionista foi essencial, sem dúvida — organizou, articulou, mobilizou e deu ampla visibilidade. Mas a ruptura final só se concretizou porque houve ação direta por parte de quem vivia a violência de séculos de cativeiro.
Se a abolição foi conquistada com luta, o pós-abolição imediato revelou um cenário muito menos promissor. Aos libertos, não foram garantidas condições concretas de inserção social, acesso à terra, educação ou trabalho digno. A cidadania, tão sonhada, não se realizou plenamente. Restou, para muitos, apenas a liberdade formal.
Por isso, refletir sobre o 13 de maio exige mais do que celebrar um marco legal. É preciso reconhecer os sujeitos históricos que tornaram esse momento possível — e, ao mesmo tempo, encarar as permanências da desigualdade que se estendem até o presente.
No horizonte da tão sonhada cidadania, parece-nos que nada além da liberdade pôde ser garantido.



