Alguma coisa aconteceu com Luizz Ribeiro

Por Jorge Rocha
Durante algum tempo, tive o costume de me aproximar de pessoas que são referência em minha formação, estabelecendo uma amizade que só fortalecia essa admiração e gerava cumplicidade. E há vários momentos em que a ausência de algumas destas amizades me incomoda muito. É o que acontece em relação a Luizz Ribeiro, mítico músico de Campos, eterno band leader da Avyadores do Brazyl, que cometeu a indelicadeza de falecer em 2010 e nos deixar com essa ausência chatinha que, às vezes, bate mais forte.
Essa é uma das poucas birras que tenho com a morte.
Luizz, muito antes de adicionar outro z ao seu nome, já era alguém que eu tinha em alta conta, pela sua trajetória musical aqui na cidade, que veio sendo construída desde os tempos da Lúcia Lúcifer, sua primeira banda, que se apresentou em um colégio católico. Começamos a conversar apenas quando eu passei a fazer matérias sobre a Avyadores para um jornal local onde trabalhei. Isso porque a admiração que já havia me travava qualquer aproximação anterior. Ele, um construtor de melodias e letras que eram lições de storytelling; eu, um reles mortal enxerido, metido a escrever sobre cultura. Mas essa distância foi se mostrando ilusória à medida em que fomos percebendo os gostos em comum por blues, fome de viver e criar as próprias histórias, fazendo com que a confiança mútua crescesse.
Tive um desses orgulhos bobos que massageiam o ego quando, pela primeira vez, ele me mostrou músicas próprias que havia gravado em estúdio caseiro e pediu minha opinião. O coração de fã – que nunca deixei de ser – se encheu todo. Foi algo que se tornou costumeiro, assim como assistir shows da Avyadores e apresentações solo de Luiz, repletas de blues. Tempos depois, eu cantaria alguns destes blues que aprendi com ele como canção de ninar para meu filho.
Luizz foi um marco cultural para esta cidade. Foi um ídolo – ok, não dava para escapar deste termo – que pude chamar de amigo. Tenho poucos deste naipe entre minhas amizades; Reubes Pess é uma dessas pessoas. Vi os dois se apresentando juntos em alguns shows, em projetos com Arthur Gomes e até mesmo em um único encontro musical com Lula Ferreira – sob o nome de Os Kaskas – no Teatro de Bolso. A sensação era sempre a mesma: uma certa estupefação em conviver com essas pessoas. E conviver com Luizz Ribeiro e sua amizade era ter certeza de criar histórias sempre.
Em 2020, eu e Alexandro F, que fundou a Mutável Saralho Band comigo, editamos o ebook “Alguma coisa aconteceu no 401”, para marcar os 10 anos da morte de Luizz. Chamamos alguns escritores de Campos para recontar as músicas do primeiro CD da Avyadores do Brazyl, “Alguma coisa vai acontecer no 401”, neste livro, mas acabamos recebendo contos apenas de Márcio Aquino e Wesley Machado, que também admiram este grande amigo. O livro ainda traz depoimentos de Reubes Pess, Romualdo Braga e Paulo André Barbosa – outro culpado por parte de meus gostos musicais. O ebook agora faz parte do acervo do Descubra Campos e pode ser baixado aqui, ao final do texto.
Até o momento em que comecei a escrever essa coluna, pensava que os dois contos que escrevi para este ebook – La vie en bleu e Pela Janela, títulos de duas músicas da Avyadores que gosto muito – eram sobre memória e despedida. Mas não. Ambos falam sobre agradecimento.
Obrigado, meu amigo. Pelas histórias que suprem tua ausência.