NOTÍCIAS

David Lynch e o Lobisomem de Ponciano

Por Jorge Rocha

Dia 24 agora marcou mais um #twinpeaksday – você não é fã de David Lynch?; volte dez casas, desgraça! Uma amiga, que prefere não ser identificada nessa coluna, mania que esse povo tem de anonimato, sabendo do meu apreço escancarado por essa série, me perguntou como seria algo nessa pegada, mas ambientada aqui em Campos, aproveitando suas peculiaridades e possibilidades narrativas.

Corri então atrás da fala completa do agente Cooper quando entra em Twin Peaks pela primeira vez e rabisquei uma versão campista:

“Regiene, 11h30, 24 de fevereiro. Chegando agorinha na cidade de Campos dos Goytacazes, 8,05 km ao sul de campos abertos, fazendas e pequenas estradas vicinais, 32,19 km ao oeste de pequenas localidades do interior. Eu nunca vi tanto brejo na minha vida. Acabei de ver uma placa dizendo “Cuidado com o Ururau que o Ururau te pega, te pega dali, te pega de lá”.

Me lembrei agora de José Cândido de Carvalho, quando Ponciano chega na cidade: “o homenzinho das passagens, aparecido na porta do vagão, avisou: – Campos! Campos dos Goitacases!” 36°C em um dia levemente nublado. O meteorologista disse que ia chover, mas fará calor. Se você pudesse ganhar esse tipo de dinheiro por estar errado sessenta por cento das vezes, seria melhor virar influencer.

O odômetro está marcando setenta e nove mil, trezentos e quarenta e cinco, o marcador de combustível já tá na reserva, tô indo no olhinho da agulha aqui, e vou ter que encher o tanque quando chegar na cidade. Me lembra de te dizer quanto isso tudo dá e depois você me manda um pix. O almoço custou, hum, um baço e um rim lá no Oásis, que fica ali na BR-101, km 206, em Ponta da Lama. Peguei um misto com queijo e presunto de três dias, uma fatia de bolo caseiro que já estava gerando um ecossistema próprio e um copo de café quase queimado. E essa era a comida boa. Regiane, se você algum dia vier por aqui, traz uma torta de cereja num tupperware para comer.

Ok. Parece que vou me encontrar com o, hum, Coronel Azeredo Furtado. Não deve ser tão difícil lembrar esse nome. Ele estará no Hospital Ferreira Machado. Acho que vamos subir para a UTI e dar uma olhada naquela garota que rastejou pelos trilhos da Estrada de Ferro Leopoldina, lá perto da antiga Estação Ferroviária de Campos. Quando eu terminar lá, irei dar uma conferida num tal Hotel Gaspar. Ou talvez o coronel possa recomendar algum lugar limpo, com preço razoável. É isso que eu preciso: um lugar limpo, com preço razoável e sem carro com som ligado no máximo passando em frente a madrugada inteira, uivando igual a um lobisomem.

Ah, Regiane, quase que eu esqueci. Tenho que descobrir que negócio é esse de chuvisco.” É um ponto de partida – e nem arranhei a superfície do material local que daria para aproveitar. Folclore próprio, histórias do além, personagens sui generis e lugares que evocam mistérios a cidade tem, isso é fato. Dá para fazer paródias de filmes e séries com isso, coleção de livros e até mesmo RPG. E assim, talvez usar a cultura pop para colocar a cidade na memória.

Um sonho, não é?

David Lynch se orgulhava de ser um sonhador. E aqui vai uma de suas citações que mais gosto: “Conte as histórias que estão dentro de você. Apenas seja fiel a essas ideias e aproveite o processo de realizá-las.”