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Computadores fazem arte: jornalistas não cobrem cultura

Computadores fazem arte: jornalistas não cobrem cultura

Começar logo avisando: este não é um texto festivo; Vai um tantinho na contramão do ala-la-ô deste momento, mas passa longe da vala da tristeza e infelicidade. E é quase um complemento à “Estamos perdendo”, texto já publicado aqui nessa coluna. Leu não? Vai lá. Eu espero. Já leu? Então aqui está a primeira frase para finalmente chegarmos ao que esse texto quer tratar:

A cobertura jornalística sobre pensamento e produção cultural em Campos e região Norte Fluminense é, com frequência, curta, episódica e pouco comprometida com a profundidade.

Aqui eu desaguo pequenas crônicas que guardam fragmentos do que acontece. Mas crônica e opinião só vão até onde permitem as rotinas jornalísticas locais. Precisamos de relato, análise e memória. Sem apuração mais longa, sem entrevistas que vão a fundo, sem ensaios fotográficos e sem um arquivo que nos permita revisitar e somar camadas, nós acabamos repetindo a mesma notícia de modo enlatado e enfadonho. É aí que penso no que revistas como a Trip e publicações brasileiras faziam com maestria: transformar entrevistas em quase-biografias, capas em imagens-ícone, sessões de foto que contam uma vida inteira numa única página.

É essa ambição que nos falta por aqui, pô!

O que vejo costumeiramente é o hábito de tratar Campos como ponto no calendário: estreia tal show, festival tal fim de semana, release do artista X. Falta o fio narrativo que ligue “isso tudo que está aí”, a entrevista longa que revele tensões, a sessão fotográfica que torne visível uma persona local. Piauí, Trip, e até cadernos culturais sempre mostram que é possível – e desejável – produzir peças que não se esgotem num post de rede social: textos que contextualizam, que relacionam políticas culturais, memória urbana e vida cotidiana. Isso exige reportagem, pesquisa e imagens que fiquem.

Na prática, o que proponho (e aqui falo do que já tentei e que vejo funcionar em outros lugares) é simples e caro ao mesmo tempo: investir em entrevistas longas com músicos, produtores e curadores; produzir ensaios fotográficos que arquivem rostos e lugares; guardar material de apoio (áudios, fotos, depoimentos) num acervo acessível; e publicar séries temáticas que cruzem gente, lugar e política cultural. Não é só sobre estética: é sobre dar à cena local a infraestrutura simbólica que a transforme em referência ,não apenas para o público de Campos, mas para pesquisadores, produtores e editores de outras regiões.

Também precisamos olhar para quem não aparece. A cobertura costuma privilegiar palcos maiores e nomes já conhecidos; pouco se fala das periferias, dos grupos informais, das mulheres que produzem sem holofote, dos coletivos de bairros e das práticas populares que sustentam nossa vida cultural. A reportagem cultural que vale a pena é a que amplia repertório: traz vozes negras, rurais, periféricas; mapeia modos de fazer; e questiona por que certos lugares têm mais visibilidade que outros. E, se quisermos seguir modelos éticos contemporâneos, é preciso transparência sobre parcerias e patrocínios. Coçando a minha barba branca, logo penso: nada de camuflar conteúdo comercial como se fosse descoberta jornalística.

Tudo isso exige acordos entre veículos locais, prefeituras, espaços culturais e, claro, os próprios artistas. Seria ótimo imaginar um pequeno “caderno” permanente sobre cultura do Norte Fluminense, dedicado a entrevistas e séries fotográficas, com periodicidade e recursos. Cursos curtos para repórteres locais, residências para fotógrafos e editais que peçam também documentação jornalística são medidas práticas e possíveis. A cidade tem talento e memória; o que falta muitas vezes é o tempo e o projeto editorial para transformar talento em história pública.