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COLUNA | Festa do Santíssimo Salvador

Por Rafa Machado

Poucas cidades brasileiras têm o privilégio de possuir o próprio Jesus Cristo como padroeiro. Campos dos Goytacazes é uma delas. Desde sua fundação, o então povoado recebeu o nome de Vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes, demonstrando que a devoção ao Santíssimo Salvador faz parte da identidade local desde o início do processo de ocupação colonial da região.

Para o campista mais tradicional, existem datas que dividem o calendário naquele típico “antes e depois”. A Festa do Santíssimo Salvador é uma delas, representando um dos mais antigos patrimônios culturais da cidade.

Em 2026, a festa chega à sua 374ª edição, número que remete ao ano de 1652, quando a celebração foi realizada pela primeira vez em solo campista, segundo indicam as pesquisas. É também nesse período que se inicia a ocupação efetiva da região e a formação do núcleo que daria origem, anos mais tarde, à Vila de São Salvador.

A festa não homenageia um santo específico, já que o Santíssimo Salvador é o próprio Jesus Cristo. A data de 6 de agosto celebra, na tradição cristã, a Transfiguração do Senhor, episódio narrado no Evangelho de Mateus em que Jesus sobe ao Monte Tabor acompanhado de Pedro, Tiago e João e manifesta sua natureza divina diante dos discípulos.

A devoção chegou à região como herança da colonização portuguesa. A tradição atribui a Salvador Correia de Sá e Benevides — governador do Rio de Janeiro por três ocasiões e personagem de destaque da história colonial portuguesa — a escolha do Santíssimo Salvador como padroeiro da futura vila. Embora não exista documentação que comprove essa decisão, acredita-se que ela tenha sido motivada por sua devoção pessoal.

A primeira igreja dedicada ao Santíssimo Salvador era extremamente simples: uma pequena capela de paredes de taipa e cobertura de palha, erguida em 1652 e confiada aos cuidados dos beneditinos. É justamente ao redor dessa capela que começou a se formar o povoado. Segundo a tradição histórica, foi ali que o frei beneditino Fernando de Monserrate teria celebrado a primeira missa registrada em terras campistas, embora essa informação seja conhecida apenas por relatos históricos posteriores, sem documentação contemporânea que a confirme.

Quem passa atualmente pela Igreja de São Francisco, na Rua Treze de Maio, encontra um marco de pedra indicando: “Aqui foi instalada a Vila de São Salvador de Campos”, com inscrição da data de 29 de maio de 1677. O monumento recorda o local onde funcionou a primitiva Igreja Matriz, elevada à condição de matriz quando foi criada oficialmente a Vila de São Salvador pelo segundo Visconde de Asseca.

Poucos anos depois, a antiga construção encontrava-se em ruínas. A população iniciou então a construção de uma nova matriz em terreno mais elevado, exatamente onde hoje se encontra a Catedral Basílica. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, o templo passou por sucessivas ampliações e reformas, recebendo recursos da Coroa Portuguesa, de autoridades locais e da própria comunidade. Em 1721, por exemplo, os moradores enviaram uma carta ao rei D. João V reclamando das precárias condições da igreja, reduzida praticamente a um “tejupar de palha”. Sensibilizado, o monarca determinou, no ano seguinte, que a Fazenda Real custeasse a construção da capela-mor, possibilitando a reconstrução da Matriz em 1725.

Outras ampliações ocorreram nas décadas seguintes, mas a atual configuração da Catedral é resultado das grandes obras realizadas durante a primeira metade do século XX, conduzidas pelo monsenhor João de Barros Uchoa. O novo templo foi inaugurado em 1935 e, posteriormente, recebeu os títulos de Catedral Diocesana, Basílica Menor e, finalmente, Catedral Basílica do Santíssimo Salvador.

Entre seus principais elementos arquitetônicos destacam-se os 32 vitrais, o altar oferecido pela comunidade sírio-libanesa e as quatro monumentais esculturas de bronze que ornamentam a fachada principal, representando os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João.

Ao longo de mais de três séculos, a Festa do Santíssimo Salvador deixou de ser apenas uma celebração religiosa para tornar-se uma das maiores manifestações culturais de Campos dos Goytacazes. Além das missas e da tradicional procissão, a programação passou a reunir apresentações musicais, eventos esportivos, festivais gastronômicos e diversas atividades culturais que marcaram gerações de campistas.

Assim é que passados mais de 370 anos, a Festa do Santíssimo Salvador segue preservando a memória da própria formação de Campos dos Goytacazes. Ao reunir fé, história, cultura e tradição, ela renova um vínculo iniciado há 374 anos entre o povo campista e aquele que, desde a origem da cidade, lhe dá nome e proteção.