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COLUNA | Falando sobre “computadores fazem arte” com Analice Martins

Papo reto: hoje não tem coluna.

Não do jeito que você define “o que é uma coluna”.

(Veio agora a imagem do Antônio Abujamra, no programa “Provocações”, perguntando: “o que é a vida?”)

Trago para a sua tela uma entrevista que fiz com Analice Martins, material que serviu como fonte para uma matéria jornalística sobre Inteligência Artificial, literatura, cognição e linguagem. A conversa foi tão boa e, como não deu para ser toda aproveitada no resultado final, senti a necessidade de publicá-la na íntegra.

Sim, em uma coluna. Dá licença aí, ô.

E se você está se perguntando “quem é Analice Martins?”, herege, eu te respondo e condeno esse teu lapso ao mesmo tempo.

Ela é professora titular do IFF campus Campos Centro e professora colaboradora do quadro permanente do Programa de Mestrado e Doutorado em Cognição e Linguagem da UENF. Suas pesquisas se relacionam aos diálogos entre literatura e estudos culturais, às questões de pertencimento e identidade cultural e também às fronteiras entre literatura e tecnologia. Também é autora de diversos artigos e ensaios acadêmicos e do livro Entremeios: ensaios sobre literatura, cinema e comunicação.

E a conversa é essa aqui:

Jorge: Como o avanço da tecnologia digital hiperconectada nos últimos 5 anos e seu impacto mudaram a forma de produzir e consumir literatura?

Analice: Não sei se “consumir literatura” significa dizer “ampliar a formação de um público-leitor”. Mas, sem dúvida, a cultura digital (plataformas, redes sociais, aplicativos etc) expandiu, de modo significativo, a circulação das práticas literárias. Sempre vi com bons olhos tal circulação ampliada. A literatura não pode ser a prima pobre do século XXI, esmagada pela cultura audiovisual. Aliás, nem precisa estar distante dela. Já as formas de produzir literatura, entendendo aqui produção como criação, ganharam outras textualidades, semioses e entrelaçamento de linguagens artísticas. O próprio meio de circulação e seus recursos tecnológicos propiciaram novas experimentações. Isso é uma constatação bem-vinda e sem melindres.

Jorge: Quando algoritmos passaram a interferir naquilo que encontramos para ler, quem passou a exercer parte do poder de selecionar a literatura: o leitor, o crítico, a editora ou a plataforma?

Analice: Por partes: o crítico literário me parece mais infenso à lógica dos algoritmos ou deveria estar de alguma forma. Já as editoras ocupam um lugar deslizante nessa lógica, pois vivem premidas pela necessidade de avaliação crítica e observação de tendências, pelos nichos e pela chibata do mercado, da venda. Portanto, acabam sendo também reféns da lógica algorítmica e mercadológica, com raras exceções. O leitor fica, então, enredado nessas dinâmicas. Muita oferta, muito acesso a tudo, e, às vezes, pouco discernimento, já que as instâncias, no Brasil, capazes de romper a lógica imperativa dos algoritmos parecem infelizmente muito desprestigiadas: o professor e os mediadores de leitura crítica.

Jorge: Redes como TikTok, Instagram e YouTube transformaram a maneira de descobrir livros. Essa nova mediação está ampliando o acesso à literatura ou submetendo a escolha literária à lógica da visibilidade?

Analice: Ampliaram não só o acesso como performatizaram as escolhas. Eu as entendo mais como plataformas de divulgação direcionadas a determinados nichos do que como instâncias formadoras de opinião crítica. Mas a minha percepção, para o bem para o mal, está fundada num lugar de enunciação que é geracional e também ligado à academia. É preciso analisar essa questão lá na ponta, no impacto sobre jovens leitores, naquilo que os seduz e como seduz. Se entendermos a lógica da visibilidade como lógica da performatização, do “show do eu”, da exibição, da “extimidade”, acho que nem sempre as implicações serão positivas.

Jorge: Com a inteligência artificial capaz de produzir poemas, narrativas e personagens, onde termina a ferramenta e começa a autoria? Uma obra precisa necessariamente nascer de uma experiência humana para ser literatura?

Analice: Talvez essa seja a questão mais delicada e complexa de todas: a autoria. E, sobretudo, o que se entende por ela. Eu poderia citar aqui vários teóricos que se debruçaram sobre tal inquietação: o que é um autor? Mas prefiro responder – sem deixar de pensar com eles – de forma mais particular. Até onde acompanho o funcionamento e os desdobramentos da IA nesse aspecto, sei que funcionam eminentemente como processadores de textos de capacidade imensurável. Processar também é parte do processo cognitivo de criação: selecionar, processar, testar, reescrever. A máquina consegue êxito nesse sentido? Creio que sim. O que ela gera (o texto) pode, certamente, informar, emocionar, divertir. Mas isso “ainda não é poesia”, como diria Carlos Drummond de Andrade, no lindo poema “Procura da poesia”. Quero crer que o que compreendemos ou venhamos a compreender como literatura e sua potência deveria ser produto inalienável da cognição humana e de sua capacidade de processar o escutado, o vivido, o inventado, o visto, o desejado. E, sobretudo, ser uma operação oriunda da subjetividade e da cognoscência humanas, da escolha intencional de palavras que podem descortinar o mundo, fazê-lo existir e transformá-lo. Na literatura, o mundo só existe na fricção da palavra. Minha reflexão é a de quem não pertence a uma geração distópica!

Jorge: Se as fronteiras entre autor, leitor, máquina, imagem, som e texto continuarem desaparecendo, o que ainda definirá uma obra como literária daqui a dez ou vinte anos?

Analice: Acho que essa questão não se coloca só agora no nosso cenário contemporâneo, mas se complexifica. É uma questão/provocação que faz parte da ontologia da teoria da literatura: o que é ou não literário? Talvez, as fronteiras e territórios agora tenham se alargado, mas essa é uma questão desde sempre, colocada em todos os “tratados” de literatura, em todas as “artes poéticas”. E muito instigante, sobretudo, porque não envolvia o polo receptor. Quem diz o que é literário ou não deveria ser o leitor, pois é ele quem posterga a palavra, a expande, a eterniza. Cada contexto histórico-cultural tem seus mecanismos de percepção e legitimação. Esse é o único fato incontestável que temos, ainda que críticos de plantão, os guardiães das belas letras, bradem e protestem.

Jorge: Ao mesmo tempo em que expande as possibilidades de produção e consumo literários, o uso de tecnologia digital causa impactos, como nas áreas cognitiva e ambiental. Como isso tem sido levado em consideração na área literária digital?

Analice: Do ponto de vista ambiental, não consigo opinar com propriedade, mas, do ponto de vista cognitivo, penso que seja uma faca de dois gumes, um caminhar sob o fio da navalha. O polo emissor, produtor, dispõe de outros artefatos, como eu disse numa resposta anterior. Há a possibilidade de semioses, hibridismos de linguagens, experimentação de outras textualidades e superfícies para quem as faz com a devida intencionalidade. Do ponto de vista do “consumo” (eu diria: da recepção das práticas literárias), vejo uma perspectiva mais controversa. Por um lado, um trampolim associativo, uma desautomatização do óbvio, um convite ao atravessamento de signos e fronteiras. Por outro, como já advertiu o sábio João Ubaldo Ribeiro, em crônica antológica, “No tempo do livro”, os recursos eletrônicos e tecnológicos também podem nos roubar a faculdade imaginativa, pensar por nós, achatar nossos sentidos, oferecer, como única e rasa, uma interpretação que deveria ser múltipla, heterogênea e polissêmica. Fica aqui, por último, o convite à leitura dessa instigante crônica.