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COLUNA | Didi, o campista que conduziu o Brasil ao primeiro título mundial

Por Rafa Machado

É tempo de viver a Copa do Mundo e, com ela, toda aquela onda patriótica estampada nas camisas verde-amarelas. A Copa nos permite celebrar um Brasil que só aparece a cada quatro anos: uníssono e que concorda, pelo menos naquele momento, que só o brasileiro pode falar mal do Brasil ou da seleção. Mas esta não é uma resenha sobre futebol. Faltam-me conhecimentos técnicos básicos para tecer qualquer comentário a esse respeito, confesso.

Aproveitando o momento de protagonismo nacional, vamos falar de um dos campistas com mais destaque na história brasileira, tanto nacional quanto internacionalmente. Embora tenha ficado conhecido mundialmente como “Didi”, seu nome era Waldir Pereira. Ao apelido somou-se também o codinome “Didi, Folha Seca”, em virtude da jogada que fazia com maestria: o chute folha seca, caracterizado pelo efeito de queda rápida da bola, semelhante a uma folha caindo.

Apelidado por Nelson Rodrigues de “O Príncipe Etíope”, Didi dedicou quase duas décadas de sua vida ao futebol, 10 dos quais à seleção brasileira. Atuando como meia, foi um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, embora seja, até os dias atuais, muito subestimado, inclusive na própria cidade onde nasceu.

O craque do folha seca foi o autor do primeiro gol da história do Maracanã, em 17 de junho de 1950, na partida inaugural do estádio. É dele também o título concedido pela FIFA de melhor jogador da Copa do Mundo de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. Didi foi ainda eleito por jornalistas esportivos como o sétimo maior jogador brasileiro do século XX.

De origem familiar muito simples e humilde, Waldir Pereira nasceu em Campos dos Goytacazes, em 8 de outubro de 1928. Embora tenha iniciado a carreira no Industrial, time da extinta Fábrica de Tecidos localizada no bairro da Lapa, foi no Rio Branco que começou sua trajetória profissional. Em Campos, participou também de amistosos pelo Goytacaz e pelo Americano, embora não tenha sido jogador efetivo desses clubes.

A ida para o primeiro clube fora de Campos, o Madureira, aconteceu por influência do irmão Dodô, também jogador, que se encarregou de levá-lo consigo. Rapidamente, Didi tornou-se um dos ídolos do Fluminense e, principalmente, do Botafogo, clubes cariocas que defendeu tanto como jogador quanto como treinador.

Em Copas do Mundo, Didi defendeu a seleção brasileira em 1954, mas foi em 1958 que fez história ao ser eleito o melhor jogador daquele mundial, justamente quando o Brasil conquistava seu primeiro título.

É interessante notar que o Brasil havia se classificado com dificuldade para aquela Copa do Mundo, vencendo o Peru no Maracanã pelo placar apertado de 1 a 0, com gol, justamente, de Didi — e de folha seca. Autor da célebre frase “treino é treino, jogo é jogo”, atribui-se a ele, fora dos campos, o fato de ter convencido o técnico da seleção, Vicente Feola, da importância da presença de Garrincha e do jovem Pelé entre os titulares do grupo naquele Mundial de 1958.

No jogo da final, a Suécia abriu o placar logo aos quatro minutos. Antes que o pânico se espalhasse entre os jogadores, o camisa 8, Didi, caminhou lentamente, pegou a bola do fundo das redes e seguiu com ela nos braços até o meio de campo, transmitindo confiança e tranquilidade aos companheiros. Naquele dia, o Brasil venceu a Suécia por 5 a 2 e conquistou seu primeiro título mundial.

Após a vitória na Copa de 1958, Didi tornou-se jogador do Real Madrid, ao lado de grandes nomes como Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás. Depois disso, atuou em outros clubes, como o São Paulo, e fez também parte da seleção campeã da Copa do Mundo de 1962. Posteriormente, tornou-se técnico da seleção peruana de futebol, levando o país às quartas de final da Copa do Mundo de 1970, quando foi eliminado, justamente, pela seleção brasileira.

Didi faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de maio de 2001, aos 73 anos, vítima de câncer. Pouco antes, em 2000, foi inaugurada uma placa no Estádio do Maracanã em sua homenagem, já que dele é o primeiro gol da história do estádio. Didi também integra o Hall da Fama do futebol da FIFA, em Zurique.

Péris Ribeiro, seu biógrafo, chamava Didi de “eterno filósofo da bola”. Entendendo pouco, ou quase nada, de futebol, analisar a trajetória de Didi no esporte é compreender que aquele campista foi um dos maiores jogadores de seu tempo. Embora sua trajetória por vezes não receba o destaque que merece, é possível afirmar que estamos falando também de uma das maiores trajetórias do futebol brasileiro.

O fato de ter sido contemporâneo de mestres do esporte como Garrincha e Pelé pode ter contribuído para que o nome de Didi fosse pouco celebrado, mesmo entre os amantes do futebol. No entanto, sua trajetória revela muito mais do que a história de um mestre nos campos e craque da bola.

Há algo que vai além do que foi escrito até aqui. Didi foi o primeiro jogador negro da história do Real Madrid. Foi também um dos únicos técnicos negros de seu tempo. Mesmo vivendo em um país com ampla parcela da população formada por pretos e pardos, Didi não alcançou o sonho de treinar a seleção brasileira que, diga-se de passagem, não teve até os dias de hoje nenhum treinador negro.

O Brasil precisa de mais Didis. E Campos precisa voltar a se orgulhar de filhos da terra como ele. Após sua morte, a antiga sede da AABB passou a se chamar Ginásio Municipal Waldir Pereira em sua homenagem, mas a homenagem parece ter caído no esquecimento.

Mais do que nome de rua, de escola ou mesmo de ginásio, é tempo de reconhecer a trajetória pioneira do craque do folha seca, Waldir Pereira, o eterno Didi.