TURISMO/PONTOS TURISTICOS

COLUNA | Descubra Santo Amaro: A festa que revela Campos

Por Rafaela Machado

O que escrever para os leitores do Descubra Campos? Essa foi a pergunta que fiquei me fazendo durante dias antes de aceitar o convite para aqui estar. Se tem uma coisa que me dedico a fazer é, justamente, contar história, mas aqui a questão principal era: será que as pessoas vão se interessar por essas histórias? Aliás, que histórias eu deveria contar neste espaço? Foi em meio a muitas perguntas que entendi que eu tinha que escrever sobre a paixão que me move – a História, essa com H maiúsculo mesmo – da forma como eu acredito e que faz com que eu consiga ainda hoje me emocionar, mesmo depois de mais de 20 anos de profissão: de forma leve, dinâmica, descontraída, sem amarras acadêmicas, mantendo, no entanto, o compromisso com o rigor e com verdade para quem lê.

Quando entendi que quem está nesse espaço – que se chama “Descubra Campos” não à toa, entendi que escrever não seria tarefa, mas sim troca e aprendizado. Como somos feitos de mais perguntas do que de respostas, nova questão se colocou: qual história trazer para a estreia? Imediatamente pensei em uma tradição que me faz lembrar todos os anos do quanto somos uma cidade rica culturalmente, com uma grandeza expressa em tantos e tão diversos tipos de patrimônios, práticas e saberes: a Festa de Santo Amaro.

A celebração do dia de Santo Amaro está entre os eventos mais emblemáticos não só para a Baixada Campista, como também para toda a cidade. As festividades que envolvem o dia deste santo fazem parte não apenas do calendário oficial de eventos de Campos, como representam um símbolo que carrega intensos significados para a região e seus moradores. É possível afirmar que a festa de Santo Amaro costumava dar o tom do iniciar do ano para os campistas, assim como a Festa do Santíssimo marca, ainda hoje, o segundo semestre para a vida na cidade.

Santo Amaro é expressão religiosa elementar da identidade e de tradições da Baixada Campista, além de marcar de forma crucial aspectos sociais e culturais de uma Campos que ainda reconhece no festejo práticas e vivências que remontam a séculos de história. Há quase 300 anos, todos os dias 15 de janeiro, é possível viver uma Campos que luta para não se perder do seu passado e que mantém, embora com dificuldade, expressões vivas de sua própria história e cultura.

Historicamente, a celebração do dia de Santo Amaro está entre os eventos de maior significado para a cidade, envolvendo uma série de atividades religiosas e também culturais, como procissões, missas, apresentações das centenárias liras musicais, além da tradicional cavalhada, da qual mais adiante falaremos. Nesse período, a comunidade local passava a ser o epicentro da vida social campista, recebendo visitantes vindos de vários locais do município e das cidades vizinhas, atraindo ainda políticos e autoridades – o que ainda hoje se mantém, aliás.

E de onde vem a tradição local de devoção ao santo?  A devoção a Santo Amaro na nossa região teve início quando aqui chegaram os primeiros monges beneditinos, por volta de 1648, liderados por Frei Fernando de São Bento. Conta-se que no século XVIII, esses primeiros monges teriam trazido da Bahia uma imagem em terracota de Santo Amaro, colocada inicialmente na igreja do Mosteiro de São Bento, em Mussurepe. Depois de desaparecer por sucessivas vezes do altar dos beneditinos, a imagem era localizada num montículo de terra, onde logo depois foi erguida a capela em homenagem a Santo Amaro.

Assim, entre os anos de 1733 e 1736, com a construção da capela no local onde hoje está localizada, teve início a festa de devoção que dura até os dias de hoje, que completa em 2026, 293 anos de existência. Construída graças aos esforços de fiéis e finalizada em 1757, a Igreja passou por ampliação nos anos de 1854 e 1857, recebendo apenas no ano de 1945 as duas torres atuais. Se olharmos para a evolução do próprio festejo, poderemos observar como a cidade se desenvolveu.

A partir de 1873, quando foi inaugurada a Estrada de Ferro Campos – São Sebastião, houve um incremento na participação de fiéis à Igreja de Santo Amaro. Primeira linha férrea a ser inaugurada em território campista, foi através dela que ainda mais fiéis passaram a frequentar as festividades, alcançando a Igreja após a descida na última estação, em carros de bois, tão comuns à paisagem rural da Baixada Campista. Apenas em 1910 é que o trecho da Estrada de Ferro até Santo Amaro foi inaugurado, restando em ruínas a antiga estação, em frente à praça da Igreja, quase que como uma testemunha silenciosa de uma época de ouro das festividades. 

Quem deseja experimentar os festejos de Santo Amaro pode começar dias antes acompanhando missas, procissões, hasteamento do mastro, apresentações da Lyra de Santo Amaro – tradicional banda de música da localidade, além de leilões e apresentações musicais. Na noite do dia 14, milhares de fiéis saem de diferentes pontos da cidade para dar início à caminhada, numa jornada de fé, esperança e agradecimento. Ao longo dos quase 40 quilômetros que ligam o chamado marco zero, na Praça do Santíssimo, ao Santuário de Santo Amaro, formou-se aquilo que hoje é conhecido como Caminho de Santo Amaro, um dos únicos caminhos religiosos do estado do Rio de Janeiro. O percurso compreende um testemunho de fé que passa por mais de 20 igrejas, em diferentes localidades, algumas das mais antigas de toda a região, como as igrejas de Nossa Senhora do Rosário, em Donana, e a de mesmo nome instalada em Campo Limpo. Além disso, desviando-se um pouco da RJ-216, os fiéis podem ainda contemplar o Solar do Colégio, em Goitacazes, e o Mosteiro de São Bento, em Mussurepe, ambas construções de meados do século XVII.

A solidariedade é sentida ao longo do caminho, no qual o cansaço dos romeiros é abraçado por tantos outros fiéis que se espalham pelo trajeto servindo água e outros itens de reabastecimento (do corpo e da fé). Para acompanhar a chegada dos romeiros, missas são celebradas a cada duas horas e a sala dos ex-votos é um testemunho pungente dos milagres operados pela fé e por Santo Amaro. Foram poucas as ocasiões na minha vida em que tive a oportunidade de ver tamanha demonstração de fé. Mais do que católicos ou não, todo campista deveria viver Santo Amaro para ter um mergulho na própria história e para testemunhar a fé das pessoas em algo maior do que nós mesmos.

A celebração de Santo Amaro permite também, como disse, uma imersão cultural única em todo o estado, de tal forma que se eu pudesse te recomendar um roteiro para o festejo, aconselharia a chegar cedo para acompanhar, às 6h, a tradicional alvorada – outro evento imperdível dentro da programação da própria festa. Na ocasião, músicos da Lyra Santo Amaro, acompanhados da comunidade, percorrem toda a localidade anunciando a chegada do dia de Santo Amaro.

Há uma íntima relação entre a parte cultural da festa com o próprio sentido religioso de ali estar, sendo impossível falar sobre o dia, já tão tradicional por si, sem mencionar a cavalhada, um de seus principais destaques. Realizada na tarde do dia 15, a encenação representa os embates entre mouros e cristãos, mas que tem por finalidade celebrar a união entre as pessoas. O que pouco falamos é que a cavalhada de Santo Amaro é a única do estado em realização desde o século XVIII. A primeira edição a ser representada em solo campista teve lugar no Solar do Colégio – que hoje abriga o Arquivo Público Municipal, no ano de 1730.

Assim como fui tomada por muitos questionamentos acerca da minha presença nesse espaço, gostaria de finalizar esse texto lançando algumas perguntas. Quais são os campistas que ainda hoje sabem que Campos possui um dos únicos caminhos religiosos do estado do Rio de Janeiro? Quem já se dedicou alguma vez a apreciar a apresentação da cavalhada, única em atividade em todo o estado? Quantos campistas você conhece que se permitiram viver essa experiência tão rica do ponto de vista religioso, mas também histórico-cultural?

Se há alguns anos eu fizesse essas mesmas perguntas, acredito que muitos diriam conhecer ou ter ouvido falar. Hoje, infelizmente, poucos são os que se permitem experimentar a tradição de Santo Amaro e da Baixada Campista. É por isso tudo que deixo aqui o convite para que possamos juntos (re)descobrir não somente as festas de Santo Amaro ou a tradicional cavalhada, mas também a história de uma Campos que se perde no tempo, com seu rico, mas desprezado patrimônio, com sua identidade tão genuína e particular, vivências culturais tão ricas e singulares, mas também tão esquecidas.

Que possamos falar sobre (re)descobrir e (res)guardar o Jongo, a Mana Chica, a Folia de Reis, que possamos contar as histórias dos que vieram antes de nós, daquilo que nos alegramos e orgulhamos, mas também daquilo que nos envergonhamos enquanto sociedade. Que possamos juntos registrar uma Campos que se renova com respeito ao passado e com o entendimento que um futuro próspero só se constrói com entendimento do nosso lugar no mundo.

É importante destacar que até os dias de hoje a festa de Santo Amaro é um importante momento de fortalecimento das nossas tradições culturais, históricas e religiosas. O dia de Santo Amaro é vivido com orgulho e zelo entre os que habitam a localidade, tornando ainda mais carregado de significado a força com que se manifestam a fé dos campistas e a intensa dedicação dos que realizam a tão esperada cavalhada. Nossa memória, nossa história e nossa cultura habitam também em Santo Amaro. Viva o 15 de janeiro!