NOTÍCIAS

A Campos que um dia foi dos Goitacá

Nós não vivemos em uma Campos qualquer. Se viajarmos para fora do estado do Rio de Janeiro e dissermos que somos de Campos, imediatamente perguntarão: Campos do Jordão? Mas não. Somos de outra Campos — a que carrega no próprio nome a referência aos legítimos habitantes dessa terra: os Goitacá. No entanto, apesar disso, quais são, hoje, as referências que a cidade preserva daqueles que lhe emprestaram o nome?

Alguns diriam que nenhuma, ou quase nenhuma. Talvez outros se recordem da antiga estátua que ficava no chamado “trevo do índio” — denominação que ainda resiste entre os campistas mais atentos aos aspectos simbólicos da cidade. Em virtude do processo histórico de silenciamento e apagamento ao qual foram submetidos os legítimos donos dessas terras, ainda há muito sobre os Goitacá que precisa ser contado na cidade que lhes tomou não apenas o nome, mas a própria existência.

Nossos campos são oficialmente atribuídos aos Goitacá, também chamados de Uitacá — uma etnia indígena conhecida pelos historiadores e descrita por cronistas e religiosos como bravia e valente, capaz de matar tubarões com um golpe certeiro de lança e, em seguida, utilizar seus dentes como troféus da caça. Trata-se, contudo, de uma visão frequentemente estereotipada e descontextualizada da realidade indígena, marcada por preconceitos e construída a partir do olhar do colonizador.

Segundo estudos arqueológicos, é possível afirmar que os primeiros Goitacá chegaram ao litoral do atual estado do Rio de Janeiro por volta de 2000 a.C., ocupando regiões que abrangiam o litoral de Cabo Frio, a Serra Fluminense e o sul do Espírito Santo. Eram pescadores, caçadores, agricultores e ceramistas, vivendo, preferencialmente, em áreas de lagoas e rios — razão pela qual foram frequentemente descritos como grandes nadadores.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos estudiosos dos Goitacá diz respeito ao desconhecimento de sua língua, que não foi devidamente registrada antes de seu desaparecimento ou incorporação a outros grupos. Esse fator é fundamental para a identificação dessas comunidades e sua vinculação a um tronco linguístico. Ainda assim, há indícios de que os Goitacá pertenciam ao tronco linguístico Macro-Jê e, possivelmente, à família Puri-Coroado, que inclui línguas como Puri, Coroado e Coropó — e, possivelmente, o próprio Goitacá e o Guarulho.

Há diversas interpretações para o significado do termo “Goitacá”. As mais difundidas apontam para “corredores da mata”, “grandes corredores” ou “nadadores”, mas também há quem associe o nome à ideia de “caranguejo grande que mata ou devora gente”. É importante destacar, contudo, que os Goitacá não constituíam um único grupo homogêneo. Segundo o francês André Thevet, em Singularidades da França Antártica, dividiam-se em ao menos quatro grupos distintos e, por vezes, inimigos entre si: Goitacá-Guaçu, Goitacá-Mopi, Goitacá-Jacoritó e Goitacá-Mirim. Isso revela o caráter complexo e multifacetado do que, genericamente, convencionamos chamar de Goitacá.

Observa-se, ainda hoje, em análises diversas — desde publicações em redes sociais até certos estudos — a permanência de uma visão simplista e ultrapassada, que reproduz relatos produzidos por outros: um “outro” europeu ou colonizador, que ignorou os próprios sujeitos sobre os quais escrevia. Deve-se considerar, também, que grande parte das informações que chegaram até nós foi mediada por grupos Tupi, inimigos dos Goitacá, que estabeleceram contato mais direto com os europeus. O próprio termo “Goitacá” é de origem tupi e refere-se à característica de “grandes corredores”, não sendo, portanto, a autodenominação desse povo.

Persistir em descrições que classificam os Goitacá como “os mais bárbaros”, ou simplesmente como “comedores de carne humana”, é reduzir sua complexidade a narrativas de cronistas, viajantes e religiosos, como os jesuítas. Nesse sentido, é importante destacar que registros arqueológicos indicam a prática da antropofagia entre os Goitacá, compreendida aqui como um ritual simbólico relacionado à incorporação das qualidades do inimigo — o tapouyest, na língua jê, ou “gente de comer”.

Acostumados às lides da guerra, os Goitacá viam o outro como inimigo — inclusive crianças de grupos rivais. Mais uma vez, André Thevet menciona o treinamento precoce para a guerra, especialmente no uso de flechas, desde a infância.

É importante lembrar que, já no início do século XVII, os Goitacá foram submetidos a processos de aldeamento, como na Redução de São Pedro da Aldeia, em 1615, e na Fazenda de Campos Novos, em 1623, além de expedições de extermínio promovidas pelo governo do Rio de Janeiro. No entanto, a principal forma de dizimação ocorreu por meio da disseminação de doenças para as quais não possuíam imunidade, como sarampo, cólera e gripe. Era prática recorrente dos colonizadores a propagação dessas enfermidades por meio de roupas contaminadas deixadas propositalmente nos caminhos e fontes de água.

Diante disso, a história dos povos indígenas que ocuparam a região de Campos dos Goytacazes precisa ser problematizada. É necessário compreender os contatos de longa duração — anteriores e posteriores à chegada dos colonizadores —, seja com outros grupos indígenas autônomos ou já inseridos na dinâmica colonial. Os Goitacá, assim como outros povos da região, representaram não apenas a resistência à invasão, à escravização e à opressão em suas próprias terras, mas também a preservação de suas características culturais mais singulares.

E sim, caros leitores, Campos deve — e merece — ter um monumento em homenagem aos povos originários logo na entrada da cidade. Mas não aquele que existia, que não passava de uma alegoria em fibra de vidro, preenchida com espuma de poliuretano e já em avançado estado de deterioração. Não, ele não era feito de bronze ou cobre, como muitos imaginavam.

Mais do que um monumento, a cidade deve aos seus povos originários um espaço de produção e circulação de conhecimento — um lugar de resgate de saberes e práticas, de salvaguarda de sua história. Uma história que, embora silenciada e apagada, ainda resiste.

*Nota: Adota-se, neste texto, a grafia dos nomes de povos indígenas com inicial maiúscula e no singular, em conformidade com a Convenção para a Grafia dos Nomes Tribais (CGNT), estabelecida na 1ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada em 1953. Segundo essa convenção, amplamente utilizada na produção acadêmica, os nomes de grupos indígenas devem ser escritos com inicial maiúscula e, preferencialmente, no singular, por designarem coletividades socioculturais específicas, e não categorias genéricas.